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Mercado de Trabalho

CAMPO ECONÔMICO

No futuro não tão distante as sementes como conhecemos agora já não existirão mais. No lugar, os agricultores irão plantar pequenas cápsulas - como pílulas - que serão vetores para os genes que dão origem às plantas. Essa possibilidade não foi tirada de um livro de ficção científica. Veio da cabeça do engenheiro agrônomo com especialização em economia José Maria da Silveira, professor do Instituto de Economia da Esalq (Escola Superior Luis de Queiroz, da USP). Segundo ele, isso pode ocorrer em 20 ou 30 anos. Ele diz isso com a propriedade de quem não entende apenas de agronomia, mas de mercado também.

Biotec pra Galera - O que pode levar um engenheiro agrônomo a optar por uma especialização em economia?

José Maria da Silveira - Há pelo menos duas razões. A primeira é que existe, em boas escolas superiores de agronomia, como a Esalq (Escola Superior Luis de Queiroz, da USP), o curso de economia. Hoje em dia, a interdisciplinaridade e a complementaridade das profissões é muito importante. Eu optei pelo mestrado em economia. A pós é bem específica em economia, não só agrícola. A segunda razão é que a economia agrícola no Brasil é um tema importante, e os agrônomos participam intensamente dessa discussão. O jovem não deve se seduzir apenas pela biologia molecular. Se ele gosta de campo, pode ser melhorista. A sensibilidade, a visão, o conhecimento de agricultura é algo essencial. Se gosta de laboratório, algorítimos, coisas matemáticas, então, sim, pode ser biólogo molecular.

Biotec pra Galera - E como é um profissional que une a agronomia e a economia?

José Maria - Um engenheiro agrônomo nessa área trabalha basicamente em economia rural. No passado, era muito mais análise de mercado. Hoje em dia, houve uma noção de que a agricultura está em cadeias agroindustriais, e não isolada em produção agrícola. Houve uma industrialização da agricultura e você tem de trabalhar com temas não só de preços de mercados, mas institucionais, de organização, melhoria organizacional das cadeias, conflitos, barganhas, análises de evolução institucional.

Biotec pra Galera - É um mercado em expansão?

José Maria - Não necessariamente. É um mercado para quem gosta de fazer análises econômicas e também para quem se interessa pela questão social no campo. A questão da reforma agrária continua hoje de uma forma mais moderna, mas ainda bastante motivadora. A terceira área em que o engenheiro agrônomo especializado em economia tem vantagem em relação aos economistas tradicionais é a área ambiental. O ambientalista agrônomo vai fazer estudos sobre, por exemplo, quanto vale a biodiversidade. O mercado de créditos de carbono no Brasil vai ser basicamente com agronegócios. Por exemplo, você vai plantar cana, e cana é renovável, então você evita queima de carvão na Europa. Você produz álcool e vende para a Alemanha. A Alemanha, com isso, não vai depender tanto de carvão, que é altamente poluidor. Reduzindo a emissão de carbono, vai vender esses créditos e financiar projetos de álcool no Brasil. Esse não é um mercado de bens, é um mercado virtual, de idéias. Você tem de provar que realmente há uma menor emissão na hora em que deixa de usar uma usina de carvão, passa a produzir álcool no Brasil e exportar álcool para eles usarem como energia.

Biotec pra Galera - Como é o trabalho do engenheiro agrônomo no campo dos transgênicos?

José Maria - A grande vantagem do engenheiro agrônomo é que ele tem um conhecimento mais sólido de onde os transgênicos realmente entram na agricultura, não apenas pelo lado do impacto ambiental, mas pelo lado dos ganhos de produtividade. O agrônomo sabe como funciona a indústria de sementes. Um biólogo ou um economista teria enorme dificuldade para entender isso. A gente sabe que a indústria de semente é extremamente importante, não cai em histórias de que "é bonito o agricultor fazer uma roda e ficar trocando sementes". Na agricultura moderna, não tem cabimento. Então, você orienta que é bom preservar a tradição, mas que há coisas importantes que precisam ser implementadas, faz essa interface entre a parte técnica e a econômica, justificar do ponto de vista econômico. Explica que gastar com semente transgênica não é perda, é lucro, porque não vai haver doença, a produtividade vai ser maior, haverá menos gasto com pesticida, poluirá menos o ambiente. Esses custos-benefícios ambientais de certas práticas agronômicas são algo que o engenheiro agrônomo faz melhor que o economista.

Biotec pra Galera - Que alterações a biotecnologia devem provocar no mercado mundial?

José Maria - Neste momento, há poucos tipos de transgênicos. Há os fundamentais, como a soja tolerante a herbicidas, o algodão Bt e o milho Bt, resistentes aos insetos, e plantas tanto de algodão quanto de milho que são tolerantes a herbicidas e resistentes a insetos. Isso é só o começo de um conjunto de estratégias. E essa é uma estratégia relativamente simples, porque mexe com um gene só, e que foi muito bem-sucedida. É algo simples com grande impacto. O efeito que isso tem, inicialmente, é de menos uso de pesticidas, o que é importantíssimo, e de simplificação das práticas, o que permite que o gerente agrícola tenha mais tempo para outras atividades e para se dedicar ao planejamento da produção, à melhor comercialização da safra, em vez de ficar perseguindo erva daninha.

Biotec pra Galera - Como o Brasil está em pesquisas?

José Maria - O Brasil tem um grande trunfo em relação à maioria dos países que é uma boa pesquisa de melhoramento genético convencional e uma boa indústria de sementes. A pesquisa de ponta, sofisticada, há nas universidades, em algumas empresas, como a Canavialis, e nas internacionais, que não fazem tudo no Brasil, fazem uma parte. Mas o ritmo é muito rápido e já estamos ficando defasados. Ter resultados objetivos é algo complicado. Não temos resultados melhores porque o Brasil demorou muito a ter uma lei de biossegurança, e um pouco do compasso de espera está relacionado à posição da União Européia. Agora, já há resultados por aqui. A própria Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] já tem variedades com tolerância a outros herbicidas (por exemplo, da família das imidazolinonas).

Biotec pra Galera - Economicamente falando, o Brasil tem dinheiro pra pesquisas?

José Maria - Sim, mas o objetivo de obter superávit acaba atrapalhando. O Brasil tem dinheiro pra pesquisa, tem universidades boas nessa área agrícola, como a Esalq, a de Viçosa, a Unicamp, a de Ribeirão Preto, a Unesp, que melhora dia a dia, a UFMG, a UnB, junto com a Embrapa, em Brasília. Há uma rede de pesquisa respeitável. Sem falar que é o segundo maior país agrícola do mundo, depois dos EUA.

Biotec pra Galera - Em longo prazo, como o Brasil pode aproveitar economicamente o uso de transgênicos?

José Maria - O transgênico é uma técnica interessante, que, na maioria das vezes, vai ser selecionada pelo mercado. Algumas coisas vão ser ruins, outras vão ser boas, a biossegurança vai vetar outras. Mas não é o único caminho, temos de continuar perseguindo. A agricultura moderna é de precisão, de economizar água - e nisso o Brasil tem uma vantagem, porque outros países têm menos água -, de melhoramento genético, de domesticação de novos cultivos, como da Amazônia. Estamos só arranhando isso, há vários pólos em que a transgenia entra como um elemento. A transgenia é importante no enriquecimento de alimentos, em transformar os alimentos em alimentos funcionais. É o grande caminho que o Brasil deve perseguir, o do valor adicionado - melhorar a qualidade de produtos in natura, como frutas.

Biotec pra Galera - Como isso funciona?

José Maria - Por exemplo: você vender um melão que tem vitaminas para a pessoa que tem deficiência dessas vitaminas. Ou: a partir de certa idade, as mulheres começam a perder ferro. Isso é um problema grave, dá anemia e problemas que aumentam com a idade. Para isso tem o alimento enriquecido em ferro. As pessoas às vezes acham que o mercado de produtos processados, como a massa pronta, é para o "povão", e você vê que os produtos orgânicos (produzidos sem pesticidas) costumam ser acessíveis apenas para pessoas de renda mais alta. Quem produz o orgânico criou uma mistificação contra os transgênicos. No futuro o uso da biotecnologia certamente ajudará a reduzir o uso de produtos poluentes, só que acessíveis à maioria da população. Dizer que transgênicos é ruim porque as grandes empresas gostam de poluir e são contra a preservação ambiental é uma visão estreita e que não deve direcionar a política de C&T&I nesta área, com o risco de termos um futuro mais problemático.

Biotec pra Galera - A engenharia genética vai ser predominante nas lavouras?

José Maria - Totalmente, nos próximos 20 a 30 anos. As pessoas brigam muito por semente, e semente vai acabar, as pessoas vão produzir e vender vetores de semeadura, que vão ser uma cápsula, uma pílula. Você não precisa da semente, quer o que se multiplica, não é? Você já está se livrando. De um espermatozóide já fizeram uma pessoa, teoricamente. Vão conseguir a mesma coisa rapidamente com a semente. Ela é o resultado de um cruzamento, que tem variabilidade, toda aquela coisa que às vezes é boa e às vezes é incômoda do cruzamento genético. Aqui, não, você vai ter um conjunto de genes gerado em laboratório e vai veicular isso via uma cápsula, que reduzirá custos e riscos no início da produção agrícola. O importante é evoluir garantindo o monitoramento dos efeitos dessas inovações, com biossegurança e preservação de identidade.

 

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