Tornar plantas resistentes a insetos ou usar essas plantas para expressar biomoléculas do hormônio do crescimento humano fazem parte das pesquisas de quem trabalha com biotecnologia vegetal. No Brasil, país que é referência internacional nesse tipo de pesquisas, quem se dedica à área pode trabalhar em locais como o Centro Nacional de Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), da Embrapa. É lá que o engenheiro agrônomo Giovanni Rodrigues Vianna, doutor em biologia molecular, desenvolve seus trabalhos. Confira o bate-papo dele com o Biotec pra Galera. |
Biotec pra Galera - O que faz exatamente um pesquisador na área de biotecnologia vegetal?
Giovanni Rodrigues Vianna - O trabalho de um pesquisador nesse ramo busca, por exemplo, alterar as características genéticas de uma planta de uma maneira controlada, para que essa planta possa conviver melhor com condições inadequadas de solo ou resistir melhor ao ataque de insetos ou microrganismos que lhe sejam prejudiciais. É uma área que vem sendo mais explorada a partir da década de 90, sendo uma das mais requisitadas atualmente no Brasil e no mundo.
Biotec pra Galera - Como é o seu trabalho de pesquisa?
Vianna - Eu trabalho com melhoramento de plantas usando a ferramenta da engenharia genética. Quando você identifica numa planta alguma característica que seria interessante transferir para outra planta, geralmente isso é feito por cruzamento sexual. Mas, muitas vezes, esse cruzamento não é possível, e então entra a engenharia genética. Esta técnica nos permite, por exemplo, transferir características de uma planta de tomate para a soja e vice-versa, o que não seria possível por cruzamento sexual. Essa ferramenta é ainda mais abrangente porque permite expressar genes de qualquer reino em plantas.
Biotec pra Galera - Pode dar alguns exemplos de pesquisas que vêm sendo desenvolvidas no Cernagen?
Vianna - Nós temos, por exemplo, introduzido genes de espécies nativas do cerrado, que são tolerantes à seca, em plantas de interesse comercial, como a soja e o feijão. Outro exemplo é a resistência ou tolerância a doenças viróticas, como ao vírus do mosaico dourado do feijoeiro (BGMV - Bean Gold Mosaic Virus). Este é um vírus muito conhecido no Brasil, porque tem impossibilitado a produção de feijão em algumas regiões. Ele causa o amarelecimento das folhas e, entre outros danos, compromete a capacidade da planta de fotossintetizar. Essa doença é transmitida por uma mosca, e o controle químico da mosca, que se fez por muito tempo, mostrou-se ineficaz. Como não existem plantas de feijão resistentes a esse vírus, tivemos de buscar alternativas genéticas. O que fazemos é introduzir seqüências modificadas do próprio vírus para poder conseguir resistência, como se fosse uma vacina. Neste caso, você não retira o gene de outra planta, retira diretamente do vírus.
Biotec pra Galera - Quanto tempo se dedica a uma pesquisa dessas?
Vianna - É variado. A Embrapa tem uma equipe multidisciplinar que trabalha na pesquisa de resistência ao vírus do mosaico há mais de uma década. Eu trabalho nela há exatamente dez anos, desde que entrei na Embrapa, mas há gente que estuda esse problema há 14 anos ou mais. Atualmente, temos plantas que apresentam uma certa tolerância à doença, mas elas estão longe de poder chegar ao mercado. É claro que não nos dedicamos a apenas uma pesquisa por vez. Temos dez, 15 trabalhos andando simultaneamente, então, meu dia inteiro é dedicado a várias pesquisas, muitas vezes orientando estudantes de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado que trabalham conosco.
Biotec pra Galera - É possível virar um pesquisador apenas com a graduação?
Vianna - Não. O mercado de trabalho de hoje exige que você incremente seu nível de formação. É possível ser um pesquisador apenas com o mestrado, mas, para ter uma possibilidade maior, é importante ter também o doutorado. Para entrar aqui na Embrapa, eu prestei um concurso que exigia nível de mestrado. Mas depois de ter passado no concurso, continuei me aperfeiçoando e fiz também o doutorado.
Biotec pra Galera - Como está o mercado na área de biotecnologia vegetal?
Vianna - Existem algumas empresas privadas que trabalham nessa linha. Infelizmente, no Brasil ainda não há um incentivo muito grande para essas empresas desenvolverem suas pesquisas, porque nossa agricultura ainda é instável e não existe planejamento em longo prazo. Então, o forte continua sendo as empresas públicas. Para quem está começando, eu recomendo fortemente o estágio em empresas de ponta que trabalham nessa área e em universidades para melhorar o nível de formação. Existem os centros da Embrapa, a USP, a Unesp e a Universidade Federal de Viçosa, só para citar alguns exemplos. Aqui, por exemplo, recebemos estudantes de graduação para estágio, eles ficam dois, três anos no laboratório, e depois alguns acabam entrando na pós na UnB ou na Universidade Católica em Brasília mesmo.
Biotec pra Galera - Que cursos se deve fazer para trabalhar com engenharia genética vegetal?
Vianna - Para entrar na área, é possível ser formado em cursos como biologia, agronomia ou engenharia florestal. Existem até estudantes da área de nutrição, porque a engenharia genética permite melhorar as características nutricionais de uma planta. Nós temos recebido também estudantes de biomedicina. Eles podem se dedicar, por exemplo, a projetos como um que temos em andamento atualmente que é o de expressar biomoléculas de interesse farmacêutico, como o hormônio de crescimento humano, em plantas. Quem tem alguma dessas formações pode fazer mestrado em engenharia genética ou biologia molecular para se tornar pesquisador da área. Depois, pode prestar concursos ou enviar currículo para empresas ou ingressar diretamente no doutorado, algo fundamental para quem quer ser cientista.
Biotec pra Galera - Para ter mais chance no mercado, é recomendável estudar no exterior?
Vianna - O Brasil hoje é uma referência na área de engenharia genética de plantas. É claro que não se compara ainda a países do primeiro mundo no que diz respeito à quantidade, na questão de produção científica. Mas a qualidade da pesquisa aqui no Brasil é muito boa. Não creio que seja necessário estudar lá fora quando temos aqui profissionais e instituições que são referências na área, mas sair para alguma Universidade no exterior é sempre uma opção.
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