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Alimentos transgênicos x convencionais: quem causa mais alergia?

Muita gente fala que os alimentos transgênicos podem causar mais alergias que os alimentos convencionais. Essa história começou quando alguns alimentos geneticamente modificados (GM) foram liberados para os consumidores, em países como Estados Unidos e Argentina. Mas não é bem assim que funciona... Ao contrário, a biotecnologia pode ser usada para acabar com as alergias provocadas por alimentos como leite, peixes, crustáceos, castanhas, entre outros. Para explicar melhor tudo isso, conversamos com o Dr. Edson Watanabe, engenheiro de alimentos da Embrapa Agroindústria de Alimentos e PhD em Ciência de Alimentos.

Biotec pra Galera - O que faz um engenheiro de alimentos?

Edson Watanabe - Basicamente, o engenheiro de alimentos domina o conhecimento básico das matérias-primas, dos processos, operações e instalações que servem à transformação e conservação de produtos alimentícios. Na pós-graduação, a pesquisa pode estar concentrada em diferentes áreas, como ciência de alimentos, tecnologia de alimentos, nutrição e a engenharia de alimentos propriamente dita. Cada uma dessas áreas se subdivide em uma infinidade de diferentes especializações.

No meu caso particular, depois da graduação, fiz mestrado em tecnologia de alimentos, mais especificamente em tecnologia de cereais, quando estudei a influência do processamento e da cozimento na retenção de vitaminas do complexo B em massas alimentícias. Depois, fiz doutorado em ciência de alimentos, também em cereais, quando estudei as propriedades reológicas da massa de farinha de trigo utilizada em panificação, um trabalho muito mais voltado para a ciência básica.

Comecei a trabalhar com biotecnologia durante um pós-doutorado que tinha como objetivo o estudo de modelos de separação protéica. Também fiz uma especialização em avaliação de segurança alimentar de organismos geneticamente modificados. Atualmente, na Embrapa Agroindústria de Alimentos, localizada no Rio de Janeiro, atuo mais no gerenciamento de estudos de composição de alimentos, onde são avaliados seus macro e micro nutrientes, seus componentes chaves, antinutricionais e tóxicos, além dos efeitos do processamento e da cozimento. A idéia é realizar uma analise comparativa entre o alimento transgênico e o convencional. Tenho recebido vários convites para proferir palestras sobre avaliação de segurança de alimentos geneticamente modificados em congressos, simpósios e cursos de pós-graduação em diferentes universidades e institutos de pesquisa.

Biotec pra Galera - Quais são os trabalhos que você desenvolve na Embrapa?

Edson - Faço parte do comitê que coordena os projetos da Rede de Biossegurança da Embrapa, composta por várias unidades da empresa, espalhadas pelo Brasil. Minha atuação está mais relacionada com a avaliação de segurança alimentar de alimentos GM. A avaliação do potencial alergênico de alimentos GM constitui um dos itens estudados na avaliação de segurança alimentar.

Biotec pra Galera - CHá quanto tempo existem pesquisas nesta área de alergenicidade?

Edson - Todos os produtos GM aprovados até o momento, e que estão atualmente disponíveis no mercado dos países que permitem sua comercialização, passaram por esta avaliação de segurança alimentar e, conseqüentemente, pela avaliação de seu potencial alergênico. Quando os produtos GM são desenvolvidos, são submetidos a uma série de estudos, numa espécie de pacote. Um produto só é aprovado se passar em todos os testes do pacote. São testes complexos, demorados e caros, que custam milhões. Os testes de alergenicidade fazem parte desse pacote.

Biotec pra Galera - Como são feitos os testes?

Edson - A avaliação de segurança alimentar de um alimento transgênico baseia-se na análise comparativa com o alimento convencional. Geralmente, os produtos transgênicos possuem um nova proteína expressa pelo novo gene inserido. No caso específico de avaliação de seu potencial alergênico, o primeiro passo é verificar se a composição desta proteína é parecida com a de alguma proteína conhecida que seja alergênica e/ou tóxica. Se for, procede-se a outros estudos, como a digestão por pepsina, um tipo de enzima. Isso não quer dizer que toda seqüência parecida provoque alergia, mas que é necessário prestar mais atenção. A necessidade de estudos complementares é sempre definida caso a caso. Alguns alimentos já conhecidos por provocar alergias em algumas pessoas - como ovos, leite, camarão e castanha-do-pará - já foram estudados. Suas proteínas estão seqüenciadas e disponíveis em bancos de dados. Se algum novo produto tiver a seqüência parecida, será analisado com cuidado e pode até ter sua produção interrompida.

Biotec pra Galera - E como vocês garantem a confiabilidade destes testes?

Edson - Existe um enorme esforço para que os protocolos de análises utilizem critérios padronizados mundialmente, o que envolve a utilização de metodologias e condições de análise validadas, gerando resultados que tenham credibilidade internacional e que possam ser comparados entre si. A engenharia genética e a análise de segurança alimentar de organismos GM são áreas dinâmicas, em constante crescimento e desenvolvimento.

Biotec pra Galera - Existem alimentos que são desenvolvidos especialmente para não causar alergias?

Edson - Cada alimento GM é criado com uma finalidade, e existem sim alimentos com modificações específicas para não causarem alergias, sem outros fins. A biotecnologia é uma ferramenta para melhorar e não para piorar a vida das pessoas, como pensam algumas pessoas.

Biotec pra Galera - E porque existe este preconceito com transgênicos?

Edson - Geralmente, o que vende é o sensacionalismo. E por isso criou-se esse tabu sobre transgênicos. Hoje em dia, isso já está mudando e as notícias se baseiam em dados científicos. Fontes confiáveis podem esclarecer que os transgênicos são submetidos a incontáveis testes e estudos, antes que sejam considerados seguros para consumo. O problema é que muitas pessoas desconhecem os trabalhos que são feitos em segurança alimentar e acabam sendo contra os transgênicos.

É importante lembrar que qualquer novo alimento pode provocar alergia, mesmo que não seja geneticamente modificado. Um bom exemplo é o kiwi. Mas os alimentos convencionais não passam por testes de alergenicidade e continuam sento consumidos e provocando alergias, sem serem estudados. Já com os transgênicos há uma preocupação muito maior, o que os torna mais seguros que os alimentos convencionais. Muitas pessoas sofrem com alergias - 2% da população mundial adulta e 8% no caso de crianças -, mas nunca se pensou em banir algum alimento convencional por causa disso. Já com os transgênicos as pessoas são mais duras, por isso é preciso tomar mais cuidado.

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